18 de Setembro de 2019
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O garoto perguntador

*Alcindo Garcia

Aconteceu na Escola Rural da Água da Aldeia. Não me perguntem nomes. Certo garoto frequentava as aulas, mas não era bem visto pela professora. Tinha mania de fazer perguntas. Talvez já tivesse no sangue o embrião de um futuro repórter. Foi um tempo em que havia a figura do Inspetor de Escola que visitava as unidades escolares. Ao visitar as escolas as professoras faziam de tudo para causar boa impressão. Certa ocasião o Inspetor de Escola avisou que ia fazer uma visita lá na escolinha rural. Ela dispensou mais cedo o garoto perguntador, temendo que ele fizesse alguma pergunta indiscreta ao Inspetor e envergonhasse a classe. O garoto arrumou a bolsa e saiu.

Há um quilômetro da escola o carro do inspetor pifou. Não pegava de jeito nenhum. Não era falta de gasolina porque havia suficiente. Tentou mais uma vez, mas o carro não pegava. Saiu do carro, ergueu o capô, apertou aqui, apertou ali, voltou a acionar a ignição e nada do carro pegar. Preocupado com o horário, franziu a testa e conferiu as horas. Estava começando a aula na escolinha.

Foi quando ouviu a voz de um garoto. Era o perguntador, que passava por ali, com sua bolsa escolar a tiracolo. - Ta faltando água no radiador, bradou o menino. (Ele tinha experiência com o carro do pai). Havia um riacho por ali e o garoto perguntou se tinha algum balde no carro. Por sorte havia uma vasilha. O garoto foi até o riacho encheu o vasilhame, abriu a tampa do radiador despejou a água, recolocou a tampa e disse com segurança: Pode dar a partida. O inspetor de escola acionou a ignição e o carro pegou.

O menino ia saindo quando o homem o chamou. Obrigado menino. Mas a aula está começando, você não vai? - Minha professora me dispensou hoje porque vai chegar o inspetor, respondeu. - E o que tem uma coisa a ver com outra? Interpelou o homem. - Entra aqui no carro, vou leva-lo de volta à escola. O garoto chegou acompanhado pelo inspetor que o elogiou diante da classe. A partir de então a professora passou a compreendê-lo e admirá-lo.

Um dia ela foi removida para outra cidade. O garoto perguntador ficou triste, nunca mais soube notícias dela. Consta que ele nunca a esqueceu. Até hoje seus olhos brilham, quando seu pensamento volta a algum lugar do passado.

*Alcindo Garcia é Jornalista. E-mail; alcindogarcia@uol.com.br

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