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09/07/2017

As lições da casa de vó

Mais que um ambiente, é um estado de espírito

Casa de vó. Um termo que carrega dois significados completamente distintos. O primeiro do conforto, da casa onde a gente se demora, se sente acolhido, se reconhece, se identifica. A segunda conotação é a da velharia. Da casa antiga, com enfeitinhos, fotos da família pelas paredes, paninhos sobre a televisão, crochê nas almofadas, samambaias.

É comum um cliente, nas primeiras consultas, ver algum móvel ou ambiente e dizer que não gosta do estilo "casa de vó". Mas antes de negar a possibilidade de qualquer traço vintage em um projeto, temos que perceber que é justamente na casa de vó que tiramos preciosas lições sobre como tornar uma casa confortável e acolhedora.

A primeira e principal lição é o fato de que nossas avós decoravam a casa para a família. Para celebrar as pessoas que amavam. Em destaque, estavam as fotos dos filhos, pais, netos, irmãos. A decoração tinha peças que cruzaram o oceano de navio décadas atrás. O ambiente contava a história da família.

Hoje, facilmente entramos em apartamentos sem nenhuma referência ao passado ou às raízes de quem habita a casa. É como entrar em uma sala de mostra de decoração. Linda, mas sem alma.

Estamos tão preocupados em fazer uma casa bonita para impressionar os outros, que esquecemos de que são os moradores, única e exclusivamente, que tem de se apaixonar pelo que está ali dentro, e se reconhecer ali. Isso não significa mimetizar a casa dos avós na sua sala de estar. Mas perder o preconceito com móveis de família, objetos e qualquer outro tipo de item com valor sentimental agregado ao passado. São objetos que têm esse poder de dar identidade e aconchego ao lar. Por mais moderna que seja a proposta de decoração, esses itens podem ser um trunfo não só sensorial, mas estético também.

A celebração dos trabalhos manuais é outra lição que podemos aprender com nossos antepassados. Rendas, palhas, tapeçarias, artesanatos. Hoje, quando usados de formas pontuais na casa, trazem um charme todo especial pro espaço. Não é por menos que cada vez mais designers e arquitetos adentram o Brasil atrás de artesãos e resignificam essas peças dentro do universo do design. O que há pouco era regional, "antigo", agora é trendy. E todo mundo ganha com essa inversão de valor tão positiva: os artesãos, a economia local dessas cidadezinhas e as nossas casas, cada vez mais reais e brasileiras.

O desafio é tornar nossas casas cada vez menos pasteurizadas, mais reais e conectadas com a nossa essência, seja em doses homeopáticas ou em livre demanda. Casa de vó é mais que um exemplo, é um estado de espírito.



Maria Fernanda Seixas - Metrópoles
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