01 de Fevereiro de 2023
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Intocáveis: do que somos? Sobre o filme.

*Eder Pires da Fonseca

"Todo olhar simplista incide barreiras às evoluções. E todos bloqueios geram, inevitavelmente, a intolerância, resultado do egoísmo e de individualismos contemporâneos, erguidos sob supostos pilares da liberdade e auto-confiança exacerbada. Basta, porém, um sopro quente de amor para esmorecer, grão a grão, os tijolos da desarmonia" Eder Pires da Fonseca





"Nas grandes cidades do pequeno dia-a-dia O medo nos leva a tudo, sobretudo à fantasia Então erguemos muros que nos dão a garantia De que morreremos cheios de uma vida tão vazia Erguemos Muros" Muros e Grades - Várias Variáveis (1991) - Engenheiros do Hawaii




Sairei um pouco da rotina que trago nesta coluna, apenas em relação à forma: explico. As publicações até agora refletiram ensaios literários e algumas poesias, com referenciais implícitos. É claro, tangentes à própria vida. Mas me impulsionei e vou compartilhar a minha percepção sobre o filme francês "Intocáveis", o qual assisti no último final de semana.

Escrever sobre filmes, geralmente, para uma visão mais ortodoxa, liga-se à estética, à trilha sonora, à fotografia, ao roteiro, às atuações dos atores... Entretanto, não consigo fugir ao meu estilo, que é passar no escrito a impressão pura, sem procurar, contudo, dados técnicos (tão importantes, quanto esta). É claro que, mesmo assim, a abordagem guarda uma finalidade, e sua importância, apesar de refletir uma intuição. Pontuo.

Discute-se, e muito, não apenas no cinema, também na literatura, na música, no teatro, ou seja, nas artes em geral, qual seria o papel de cada uma. Definindo-se o papel de cada arte, analisaria-se e conceituaria-se a importância de uma obra: boa ou ruim, de vanguarda ou retrógada etc.

Assim, há diversas correntes históricas, cada qual com seu método de apontar o olhar para algo e dizer: obra maravilhosa ou insuficiente. Umas, ligadas ao tecnicismo, ao esmero da linguagem, da imagem, da fotografia. Outras, concernentes a buscar uma forma de pensar acerca do reflexo das indagações dos indivíduos, necessárias à evolução, imersas na sociedade a qual nos circunda. Cito, para a última, o romantismo alemão do sec XVIII - que verteu a significação parnasiana e racional da arte - a qual me filio.

Ao filme! Intouchables, é filme frânces lançado em 2011 pelos direitores Oliver Nakache e Eric Toledano. Traduzido como "Intocáveis", é uma sétima arte simples, ao mesmo tempo que emocionante e intrigante. Simples, porque é uma história contada sob a ótica de dois personagens, sem tramas ou maiores suspenses. Emocionante, tendo em vista que mostra o poder de transformação que o amor pode provocar. Intrigante, porquanto nos faz indagar sobre os valores atuais da nossa sociedade.

O enredo inicia-se com a busca de um cuidador, ou assistente, para um milhonário tetraplégico, Phillipe (François Cluzet), que precisa de atenção especial constante, devido às suas limitações físicas, decorrente de um acidente com para-pente. Ao mesmo tempo, mostra Driss (Omar Sy), na fila de entrevistas, que visa uma assinatura para obter benefício previdenciário, sem, contudo, querer o emprego.

Driss não gosta, aparentemente, do labor. Possui uma conturbada relação com uma, em tese, esfacelada família. Está seco, fechado, extravagante, quase imoral (e vamos descobrir talvez as causas). De outro lado, Phillipe é um homem de boas posses, admirador das artes plásticas e musica clássica. Ele é refinado, formal no trato com as palavras, seus funcionários e com sua condição.
É justamente essa aparente oposição de personalidades - o rebuscamento "cultural" e a explosão e "falta de modos" - que permeará o filme inteiro. Num primeiro momento, Phillipe diz a Drill que assinará o papel, pedindo-o que volte no dia seguinte.

Na entrevista de emprego, os pretendentes são todos polidos, com currículo técnico, frases prontas sobre o que os leva a cuidar de um tetraplético. Quase sempre as respostas são aquelas acerca da humanidade, no suposto "amor "aos deficientes. Driss, entretanto, não foi em busca de um emprego: queria apenas manter seu benefício.

Mas, chegada a hora, Phillipe desafia Drill: propõe não assinar o documento que lhe permitiria receber o benefício, mas fornecer-lhe um trabalho por 30 dias de experiência. Sem saber especificamente do que se trata, talvez iludido com o conforto da mansão de Phillipe - e sem ter nada a perder, expulso de casa - Drill aceita o convite.

Mal sabia ele quais seriam as tarefas: ajudar na alimentação, massagens, fisioterapia, banho, carregá-lo, ou seja, ser as mãos de Phillipe. Mais do que simples tarefas, contrapõem a suposta "masculinidade" de Drill, valores pinçados no modo de vida atual. Ser homem é fazer "coisas" de homem! Mas quais seriam essas coisas que identificam a masculinidade?
Phillipe é sereno, dócil, e todo o tratamento a ele é racionalizado, como num teatro com os papéis bem definidos. Tanto pela sua condição física, quanto pela sua riqueza, os funcionários parecem ler uma cartilha de bons modos, colocando-o numa redoma de vidro. Por sua vez, Drill é desbocado, pré-conceituoso (leia-se, aquele acostumado a indicar as coisas pelo que é externo, sem conhecê-las), com frases de efeito, e reluta em ajudar Phillipe nas suas tarefas cotidianas.

Mas há alguns avanços, e as atividades de Drill parecem caminhar bem. Todavia, começa a incomodar a todos pela sua aparente agressividade. Por isso, um amigo de Phillipe pesquisa sobre o novo empregado e descobre que ele é um ex-detento. Marca uma reunião com Phillipe e tenta alertá-lo sobre os "riscos" que o rapaz, sem conhecimento (nos moldes da sociedade contemporânea, o tecnicismo), poderia trazer para sua vida, além, é claro, do pré-julgamento por sua passagem policial.

Transcrevo apenas uma parte do citado diálogo, é um dos pontos nevralgicos da trama: "- Se pelo menos ele fosse qualificado, mas eu soube que ele é um desastre. Cuidado. Sabe que os da periferia não têm compaixão. - É isso mesmo. É exatamente o que eu quero. Nenhuma compaixão. Ele sempre me passa o telefone. Sabe por que? Ele esquece"
Bingo! Aqui o filme faz uma forte crítica a nossa sociedade atual. Ligada deveras ao tecnismo, ao conhecimento, ao "conseguir por seus próprios méritos", acabamos deixando de lado o que somos, nossos anseios, objetivos, desejos e valores para além daqueles sobre o que pairam a felicidade, esquecendo que insertos estamos numa sociedade global.

Parece que Phillipe está justamente cansado disso. Milhonário e farto da compaixão alheia. Percebe-se que por ser deficiente físico, apesar de condição financeira abastada, sua subjetividade ficou adormecida. Querem ajudá-lo, mas não sabem como. Ao invés de enfrentar o seu problema, ser os seus braços e pernas, para que seu espirito continue a viver, as pessoas preferem tratá-lo como uma criança, colocando a deficiência física como a morte da vida. É claro, confronto com a "perfeição" e "felicidade" plenas que a sociedade de consumo vende a todo mundo, os golpes esguios, de traços retilíneos, uma suposta completude.

Por isso liguei ao tecnicismo da sociedade contemporânea. O que tem imperado é o chegar em primeiro, as conquistas que se percebem externas, ou seja, as aparentes, que quase sempre esconde. Lutar insensantemente, ter força sobrenatural, ser o melhor, morar na melhor casa, no melhor bairro, ter o melhor emprego. Em contrapartida a isso, percebemos uma sociedade que adoece, rodeada por síndromes contemporâneas, como depressões, TOCS. Ao mesmo tempo que vende-se a felicidade por conquistas, para conquistá-las, e ao realizá-las, não se chega, e é preciso de medicamentos! Sob outro ângulo, a prática de delitos é quase sempre ligada ao inatismo criminal, e não ao reflexo dos valores da sociedade.

E talvez por isso a compaixão tenha um caráter negativo! Ter "pena" sobre a situação de algúem, estabelece-se um parâmetro para a felicidade, ao que é perfeito, e como se tudo aquilo que não se encaixar nesse esboço não possa atingir a plenitude. Mero engano!
O que significa não poder andar? Compaixão, por não poder realizar as coisas pré-determinadas, ligando a liberdade ao mero mover físico? E o que somos? Talvez por isso Drill, como ressalta Phillipe no citado diálogo, por não ter compaixão por ele, não coloca a situação como premissa para o trato. Serve-o normalmente, dialoga, tenta mostrar a ele que pode fazer as coisas como qualquer pessoa faz. Ao dizer piadas sobre sua condição, ao lidar naturalmente com a situação, Drill acaba por conseguir trazer Phillipe de volta à vida, com seus anseios amorosos, entregando-se à vida, com medos e dificuldades de qualquer em condição que seja, como nos alertasse: o externo não importa, mas sim o que vive dentro de nós!

De outro lado, o "instável" Drill também tem seu lado intocável. Não gosta das músicas clássicas e do formalismo de Phillipe. Mas não gosta, por que lhe faltou acesso? Ele não entende a admiração de Phillipe pelas artes plásticas, e brinca em várias momentos da trama com o resultado de se ficar observando um quadro.

À direita, um aristocrata, que por sua condição, levada pelos parâmetros da própria sociedade, utiliza-se das artes e do formalismo para não tocar em sua condição física, seu medo e desafios da vida. De outro lado, Drill, da periferia, pré-conceituoso com a arte, talvez por desconhecimento.



E a relação de ambos propicia o incrível: o lado intocável de cada um começa a ser exposto. Phillipe rompe as barreiras de sua deficência, colocada às vezes por nós próprios, e Drill abre-se às artes, à música, descobrindo outras habilidade, adquirindo valores, como o trabalho, a amizade. Aquele mesmo amigo de Philippe que tentou alertá-lo dos riscos, acaba por comprar um quadro pintado por Drill, pensando ser de um artistia plástico.

No fim, seja pela condição fisica de Phillipe, seja pela condição psicológica e social de Drill, ambos descobrem como o amor, o carinho, o companheirismo, experimentados com a naturalidade da vida, podem transformar tudo e que, fundamental é só uma coisa: o próximo, dar ouvido ao que é, almeja ser, e sente.

Vivemos pautados em parâmetros. O parâmetro do sucesso, o parâmetro da beleza, o parâmetro do certo e do errado, da felicidade, da tristeza, e acabamos por nos isolarmos, gerando consequências muitas vezes aparentemente inatas. Ao invés de tocarmos nos pontos críticos, preferimos parametrizar e compartimentar.

Olhamos para as notícias diárias e observamos um momento de banalização da vida, pela driscriminação de certas camadas sociais, pelo endeusamento de certos cargos, valores, por justamente tratar as coisas como intocáveis. O individualismo contemporâneo, com a toda hora dita "consquiste seus ideiais"," busque seus objetivos", acaba por transfor todos em intocáveis, de nossa real condição existencial.

Vemos hoje um engajamento pela redução da maioridade penal, pelas críticas às lutas das minorias (domésticas, homossexauis, índios, afrodescendentes). Faço uma analogia com o filme: é como se a sociedade estivesse dizendo para Phillipe: não ajude essa pessoas, elas são ruins em si mesmas e devem arcar com "suas escolhas" e com a "falta de vontade". Ao tocarmos os assuntos, preferimos racionalizamos com um discurso simplista e, em vez de enfrentarmos as evoluções, tolhemo-as com o véu da intolerância.

Ao invés de abrirmo-nos para os problemas, buscar qual é a responsabilidade de cada um na violência atual - seja física ou verbal - resolvemos sempre da forma mais reducionista. Diminua-se a maioridade penal. Preterimos apoiar a "PEC das Domésticas", sob o argumento da demissão em massa, desconsiderando a condição quase escrava - digo, liberdade formal - com a qual muitas delas passaram a maior parte de suas vidas.

"Meninos de rua, delírios de ruína Violência nua e crua, verdade clandestina Delírios de ruína, delitos e delícias A violência travestida, faz seu trottoir Em armar de brinquedo, medo de brincar Em anúncios luminosos, lâminas de barbear!" Muros e Grades


Ao terminar o filme, a pergunta que me ficou como reflexão: em que ponto somos intocáveis, não no que diz respeito aquilo que não abala, mas justamente os medos, as dificuldades, os anseios que empurrados pra debaixo de nossa personalidade, nos impedem de ver a forma motriz da vida? Que não somos um "eu", mas um "nós".

Não a compaixão, aquela a qual diz que: "as empregadas domésticas dormem na casa das patroas porque ali comem e dormem melhor". Talvez não fosse necessário melhorar as condições de trabalho, para que elas próprias tenham suas condições de habitação e moradia melhores do que um tipo de senzala contemporânea?

Drill termina pintando quadros, ao passo que Phillipe acaba por viver um grande amor, exatamente do jeito que ele é. Dois contrapontos, dada a criação de Drill, bem como a situação física de Phillipe. O que mudou ? Ceder ao intocável!

Por derradeiro, deixo algumas perguntas: E se Phillipe não tivesse fornecido uma chance a Drill? Que tipo de sentimento queremos propiciar (e receber) dos outros, compaixão ou amor? E você, qual seu ponto intocável? Ressalto que o filme baseia-se numa história real.

+ OUÇA ALGUMAS MÚSICAS DO FILME NO MEU SITE, e a ficha técnica do filme www.ederpfonseca.com.br
Eder Fonseca
Eder Pires da Fonseca tem 31 anos, original de Cândido Mota, trabalha com tecnologia há 16 anos e digital há pelo menos 10 anos, é fundador e CEO da Penze, uma empresa da Era Digital (www.penze.com.br)
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