01 de Fevereiro de 2023
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Entretenimento - Colunistas

Se chamar, me faça querer ouvi-lo

*Eder Pires Fonseca

Água Perrier - Antonio Cícero
(interpretada por Adriana Calcanhotto)
Não quero mudar você
nem mostrar novos mundos
pois eu, meu amor, acho graça até mesmo em clichês


Diz o dito popular que vamos de 0 a 80 de modo incompreensível. Já os antigos transmitiam que até o meio-dia pensamos de um jeito, e após esse horário, de outro modo. Bobagem! Quer dizer, até vamos, e mudamos de pensamentos, às vezes, pra descobrir coisas que, talvez saibamos, mas que queremos experimentar e dar mais uma chance para o inusitado. Essa é a verdade!

Na maioria dos casos, e acasos, somos decididas! Não temos, portanto, medo de nos decepcionar, escolhendo cautelosamente as vezes em que nos deixaremos passivas para tanto, seja pelo que for.

E quando exigir de nós a decisão, ou se propor a ela, não seja ingênuo, não se diga iludido, e arque como peso dos caminhos da vida, e da incitação à esquerda ou direita. Tente de novo, pratique, reinvente-se, quando a química não bater, a conversa não corresponder aqueles planos todos que desenhamos nas coisas que sabemos, não se sinta ignorado, enganado, incompreendido; apenas entenda que sua linguagem não conseguiu apontar para decifrar-nos... e talvez naquele momento.

Fofocam que temos muitas artimanhas, que queremos, como o Rei Sol, manter uma constelação de homens como se fossem planetas ao nosso redor (não seja bobinho, sabemos que fazem isso também).

Que repetidas vezes, embora sem nenhuma pretensão, deixamos ambiguidades espalhadas em nossos diálogos, como que pisando nos astros distraídas, porque, apesar de não nutrirmos um interesse de pele pelo interlocutor, mantemos ali, qual planeta girando na nossa órbita, para quem sabe, vez ou outra, regular alguma autoestima feridapor quem queremos, de fato, e talvez não tenhamos.

Outro senso-comum! Não reduza nosso misticismo a isso, ou nossa falta de interesse por você, interpretando-nos sem captar. Podemos sim, ter amigos, e manter com eles uma relação de afeto, pois para sermos ambíguas, temos de estar profundas, e seguras.

Parecemos, vejam bem, parecemos cheias de funções, mas, no fundo, acreditamos que tudo isso é mais fácil do que parece, para a lógica do improviso. Talvez não funções, pois isso seria dizer que temos manuais de uso. E não temos. Somos multifacetadas, nosso norte e perspectivas estão espalhadas em diversas atividades, tipos de linguagens, pois não é fácil fazer caber o que somos em apenas um lugar!

Até por isso, muitas vezes, aparentamos exacerbada autoconfiança, ainda que estejamos roendo as unhas, trocando a cor do esmalte, mudando o cabelo, procurando peças em liquidação para compor nosso look, quase uma fuga, numa combinação de novas estampas e cores da nova estação, puramente por insegurança!

Adoro esse olhar blasé
que não só já viu quase tudo
mas acha tudo tão déjà vu mesmo antes de ver.


Na maior parte das vezes nos achamos sim, lindas, e gastamos horas a testar tratamentos novos de beleza, além de adquirir roupas e acessórios, como quem busca entre bijuterias uma possível opinião dele sobre nossa nova aquisição, a brilhar na noite que virá. E isso não quer dizer que damos muita importância para isso. Ao contrário, querido, não achamos que perdemos nossa distinção simplesmente porque, aqui ou ali, entre um salto e uma sapatilha, entre a tinta acaju, loiro, castanho, luzes californianas, ficamos no espelho simplesmente para nos sentirmos poderosas!

Por outro lado, podemos ser tão amantes, tão in em nossas convicções, que também, entre uma frase e outra, entre um olhar e o outro, entre uma dúvida e outra, às vezes, que queremos deixar tudo tatuado, ao Chico Buarque, para, dizer, assim no seu ouvido, que: "Quero brincar no teu corpo Feito bailarina Que logo se alucina Salta e te ilumina Quando a noite vem... ".

Riem quando mencionam que nos vestimos para as outras mulheres. Quem sabe? Para que nos vestiremos para os homens em geral, todo dia, sem nenhum sentido, se nossas roupas também são campos de significações, pelas quais nos mostramos, ou escondemos? Então, se nenhum fato outro há, não vemos problemas nesse gesto feminino, cultural, que faz perto do nosso universo! Faz parte, lembre-se, menino afobado, da nossa personalidade e, por isso, não vá querer reduzi-la a isso!

É por isso que, atente-se, a combinação de cores e estampas que fazemos em nosso visu diário não revela a senha que faz nosso coração palpitar diferentemente, naquele espaço de tempo congelado onde as mãos suam só de pensar naquele entrelaçamento de dedos que precede o beijo.

Queremos compromisso, diferentemente do que andam dizendo, que os papéis de hoje teria, se invertido. Mas não precisa junto com ele vir aquele relacionamento arroz-com-feijão, com cronograma de ações, que relaciona compromisso com bater cartão-de-ponto em casa às oito horas, de frases feitas, e presentes em data calendário-do-comércio; quimera!

Gostamos da surpresa, também, fator que destoa de qualquer modo blasé de se relacionar, escondido na frequência da paixão, do bem-querer, além dos modismos nos relacionamentos: mais vitrine do que lona. Se pegamos no seu pé, como muitos dizem, talvez nem estejamos tão preocupadas com o que esteja ou não fazendo, quem sabe isso não acontece por ser a única coisa que você pode nos oferecer, um aborrecimento e que, por sermos teimosas, vamos empurrando no tempo junto com as fases da lua e dos cortes de cabelo. Pode ser que isso não seja amor!

No fundo, é claro, queremos alguém para que represente muito de nossos pensamentos e desejos! Aquele para o qual despir e vestir-se ocorre com a mesma naturalidade e singeleza com que há um abraço. Aquele que te olha, que te silencia, que te gosta, como se a única regra de convívio fosse te fazer mulher, sem esquecer do convívio em sociedade necessário. Mas também, podemos, sozinhas, correr atrás de nossos objetivos profissionais, amorosos, se o caminhar juntos representar mera atração física.

E por isso não entendem, ao revés, quando como nau que toma outro rumo com a mudança do comportamento dos mares - sim, somos sereias - mudamos o rumo de nossa direção. Experiente capitão aqui não há, a ditar nossos rumos!

Só proponho
alimentar meu tédio.
Para tanto, exponho
a minha admiração.
Você em troca cede o
seu olhar sem sonhos
à minha contemplação:


Que confiemos, acima de tudo. E isso não quer dizer marcação cerrada! Mas a confiança na liberdade de cada um, serenamente, a unir-se, para construir. Que a construção de cada um sirva para que a dois, a arquitetura das horas seja diferente, impressionista, expressionista, e todas os estilos durante a passagem do tempo.

E conversam entre si que somos confusas. Quando estamos em silêncio, acreditam que nos falta interesse. Quando mantemos contatos, mesmo que de modo educado, acham que estamos afim. Imaturidade! Não somos confusas, somos cifradas, pois a qualquer um não será dada nossa história. Claro, pensar assim é mais fácil, entre um gole e outro de cerveja, como símbolos binários.

Estamos veladas, entre olhares, perfumes, roupas, frases soltas em conversações, despretensiosas. E não adianta isolar pedações de nós, querer dizer o que olhamos, e porquê, um balanço feminino do cabelo. Somos um todo, divisível, às vezes, que deve ler lido na sua integralidade.

Desencane em querer saber um pouco do nosso dia, forçar contatos frios, programados, iludindo nossa percepção. Temos sextos, sétimos, oitavos sentidos: cabe a você escolher qual deles lhe será reservado.

Adoro, sei lá por que,
esse olhar
meio escudo
que em vez de meu álcool forte pede água Perrier


Não somos candidatas a seu amor, meu bem! Não queira fazer de uma conversa, umaentrevista de emprego, perguntando-nos CPF, RG, nome da mãe, interesses, gostos musicais. Não somos misses, ainda que nossa aparência física tenha certa parcela de cuidado, não temos um hobby predileto, tampouco a frase de um livro ou música feita, que pudéssemos responder ao prelo, sem ocasionar em nós certo cuidado e elaboração na resposta.

E se você, apressadinho leitor, quiser ter contato com as páginas do nosso livro, não pense que estaremos representadas por uma capa, ou por um prefácio que indique caminhos e atalhos do percurso. Não tente responder as perguntas que ainda não foram feitas.
Leia, antes de tudo, desapegadamente, pois também não gostamos de ser analisadas, afinal, a história, vai saber, já esteja escrita. Um quê de misticismo também é fundamental!
Ou você acha que a natureza concederia o dom da maternidade em uma vida sem significações, a alguém que se reduzisse a pré-determinações?

Somos mil, e somos únicas. Podemos ser diferentes em quase tudo. Mas a todas nós não lhe chame à conversa, se não for para fazer com que queiramos ouvi-lo, pois ai de nada adiantará flertes, olhares, presentes, palavras, gestos... caso não haja baú para guardá-los.
Eder Fonseca
Eder Pires da Fonseca tem 31 anos, original de Cândido Mota, trabalha com tecnologia há 16 anos e digital há pelo menos 10 anos, é fundador e CEO da Penze, uma empresa da Era Digital (www.penze.com.br)
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