03 de Dezembro de 2020
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Viver é envelhecer

*Lais de Oliveira Lopes

"Viver é envelhecer, nada mais" é uma famosa frase de Simone de Beauvoir, uma escritora e filósofa francesa que publicou um livro chamado "A Velhice" em 1970. Essa frase muito bem aceita entre estudiosos do envelhecimento não parece ser consensual na sociedade moderna em que práticas do antienvelhecimento tornam-se cada vez mais comuns.

O processo de envelhecimento é um fenômeno universal e natural a todos os seres humanos, negá-lo é rejeitar a existência humana e as trajetórias de vida que resultam em maturidade e sabedoria ao longo de anos vividos. Envelhecer também é aprender, como diz o ditado popular "aprender é viver", então envelhecer permite que aprendamos e acumulamos experiências de vida que tornam os mais velhos detentores de um conhecimento que só o tempo permite alcançá-lo. Isso é uma dádiva divina.

Em contrapartida, parece ter uma nuvem cinza composta por indústrias farmacêuticas e de cosméticos que pregam a juventude eterna, mostrando que as marcas do envelhecimento devem ser banidas e rejeitadas. Como se envelhecer fosse feio. Além delas, a mídia nos impõe que os idosos legais são aqueles que têm o espírito jovem. Espírito jovem? Ser alegre, viril, disposto, de bem com a vida só cabe aos jovens? Então quer dizer que espirito velho é deprimente, doente, triste e indisposto? Como se envelhecer fosse questão de espírito. Se de fato fosse assim estou cercada de jovens com espírito velho.

Recentemente li em algum desses sites que falam sobre boas maneiras de viver e me deparei com a seguinte manchete: "Cientistas buscam a cura do envelhecimento". A cura? Pois é, para alguns o envelhecimento já se tornou uma doença.

Construímos o preconceito sem nos dar conta que rejeitamos nossa própria vida. Impomos maneiras de o idoso pensar e sentir. Negamos o processo natural. Simplesmente esquecemos que mudar esse fenômeno não cabe a nós. Só não seremos velhos, se morrermos antes.
Envelhecer é aceitar as condições naturais da vida, é ter marcas na face e no corpo, é construir um livro completo de histórias que compõem o ciclo de vida. Mais que isso é fazer parte de um universo que permite que você nasça, cresça, reproduza e morra. E, graças a Deus, isso pode ser feito da melhor forma possível.

*Lais de Oliveira Lopes
Proprietária da Qualis - Tel:. 3361 2037// 9630 8531
Gerontóloga formada pela USP
Mestre em Gerontologia pela UNICAMP.

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