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Mais tempo na estrada, necessidade de trocar de ônibus e menos opções de horários e preços. Para quem depende do transporte rodoviário para trabalhar, estudar ou buscar atendimento médico, a suspensão de linhas da Guerino Seiscento, com sede em Tupã, trouxe dificuldades que vão além do cancelamento de uma passagem.

O impacto no bolso aparece em um parecer da LCA Consultoria Econômica, emitido em 11 de agosto de 2026. Nos 14 trajetos interestaduais pesquisados, o preço médio anunciado pelas concorrentes foi 74,7% maior nas consultas sem ofertas da Guerino do que nas observações em que a empresa estava disponível.

Entre os dez trajetos intermunicipais paulistas analisados, os preços por quilômetro também foram superiores em todos os casos sem a transportadora. Na ligação entre Marília e São José do Rio Preto, a diferença chegou a 51,5%.

As consultas consideram preços anunciados em datas distintas e não permitem atribuir toda a diferença à suspensão. Mostram, porém, que os passageiros encontraram alternativas mais caras nas situações pesquisadas sem a Guerino.

Viagens mais demoradas para estudar, trabalhar e cuidar da saúde

Nos trechos atendidos exclusivamente pela empresa, passageiros ficaram sem transporte direto entre as cidades. Para manter os deslocamentos, precisam buscar conexões, mudar o ponto de embarque ou recorrer a outro meio de transporte.

O parecer da LCA apresenta exemplos dessa dificuldade. Entre Paraguaçu Paulista e Londrina, a alternativa pesquisada exigia conexão em Assis e acrescentava mais de uma hora e vinte minutos à viagem, principalmente pela espera entre os ônibus.

Entre Martinópolis e Londrina, a conexão em Presidente Prudente adicionava mais de uma hora e meia. Os tempos correspondem aos horários encontrados na pesquisa e podem variar conforme a disponibilidade dos serviços.

Para quem viaja com frequência, esse tempo se acumula. Além de permanecer mais horas fora de casa, o passageiro precisa conciliar os horários de diferentes ônibus com aulas, consultas, tratamentos e compromissos profissionais, incluindo o planejamento do retorno.

Ao cruzar dados do transporte com a pesquisa Regiões de Influência das Cidades, do IBGE, a consultoria identificou 13 ligações sem oferta direta entre municípios com vínculos relacionados à procura por atendimento de saúde de alta complexidade. No ensino superior, foram 22 ligações. Alguns trajetos integram os dois grupos.

Segundo o documento, mais de 8 mil passagens da Guerino, programadas para viagens entre junho e agosto, tiveram de ser canceladas, conforme dados de bilhetagem da empresa.

Guerino contesta suspensão e busca retomada

A ANTT determinou a suspensão cautelar de 23 autorizações em 27 de maio de 2026, após denúncias da Empresa de Transportes Andorinha. A discussão envolve viagens entre municípios paulistas realizadas dentro de linhas interestaduais. A acusação é de que essas operações exigiriam autorização estadual específica e poderiam gerar vantagem concorrencial em relação às operadoras estaduais.

A Guerino contesta as acusações e sustenta que as autuações apresentavam erros materiais e informações incorretas. A empresa afirma que operava amparada por autorizações administrativas e decisões judiciais, sob fiscalização da ANTT. Também questiona a condução do processo, alegando que não teve assegurado o direito ao contraditório e à ampla defesa.

A transportadora apresentou recursos administrativos e recorreu à Justiça, obtendo decisões que permitiram retomadas provisórias. Após o retorno das restrições em agosto, informou que estava recorrendo e mantendo tratativas com ANTT e Artesp, com apresentação de requerimentos e estudos técnicos para restabelecer os serviços.

O parecer da LCA também contesta os fundamentos econômicos da suspensão. Segundo a consultoria, os dados não demonstraram uma retirada sistemática de concorrentes provocada pela atuação da Guerino. Em contrapartida, a análise identificou redução das alternativas de transporte e preços maiores nas consultas sem a empresa.

Pequenos negócios e comércio também são afetados

A falta dos serviços atinge pequenas empresas que utilizam as rotas para enviar e receber cargas e encomendas. A necessidade de buscar outras formas de transporte exige reorganizar entregas e pode aumentar despesas e prazos, interferindo na rotina dos negócios.

A redução da circulação de passageiros também repercute no comércio local e regional. Em Assis, a interrupção da linha para Londrina motivou um requerimento do vereador Reinaldo Farto Nunes, conhecido como Português, cobrando informações sobre providências para a retomada.

O documento aponta dificuldades para trabalhadores e estudantes, além de queda no movimento e nas vendas dos estabelecimentos da rodoviária. A solicitação foi dirigida à prefeita Telma Spera.

80 anos de história e ligações construídas entre regiões

Com uma trajetória iniciada em 1946, a Guerino Seiscento completa 80 anos de atuação em 2026. Sediada em Tupã, a transportadora cresceu a partir do trabalho de seu fundador, que começou como cobrador ao lado do pai em linhas do interior paulista.

A empresa atua no transporte intermunicipal em São Paulo e Mato Grosso do Sul e, antes da suspensão, mantinha as 23 linhas interestaduais atingidas pela medida, conectando cidades de São Paulo, Mato Grosso do Sul, Paraná, Goiás, Minas Gerais e Distrito Federal.

Na Alta Paulista, a paralisação interrompeu ligações diretas de municípios da região com importantes polos econômicos, universitários, médicos e administrativos. Entre os destinos afetados estão Curitiba, Ponta Grossa e Londrina, no Paraná; Campo Grande, Três Lagoas, Água Clara, Brasilândia e Ribas do Rio Pardo, em Mato Grosso do Sul; Brasília, no Distrito Federal; Goiânia e Itumbiara, em Goiás; e Uberlândia, em Minas Gerais.

Nos percursos em que não havia outra operadora, a população ficou sem atendimento regular direto. Para estudantes, trabalhadores, pacientes em tratamento e famílias, a suspensão rompeu conexões construídas ao longo de décadas e tornou mais difícil chegar aos locais dos quais dependem.

*Estagiária Kamily Canola sob supervisão da jornalista Bruna de Pieri

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