15 de Agosto de 2022
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Caso de Assis é alvo de pesquisadores da USP que investigam vírus sabiá, ressurgido no Brasil após 20 anos

Conhecido como SABV, o vírus causa febre hemorrágica brasileira

Uma nova pesquisa realizada pelo Instituto de Medicina Tropical (IMT) e o Hospital das Clínicas (HC), ambos da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), que diagnosticou em 2019 dois novos casos de infecção pelo vírus sabiá (SABV), aprofundou a investigação sobre esse agente causador da febre hemorrágica brasileira. Anteriormente, apenas quatro infecções desse tipo haviam sido detectadas no País, a última delas, há mais de 20 anos. Os dois diagnósticos foram realizados em meio a um surto de febre amarela na região Sudeste do País.

Dos dois casos registrados, um foi em Sorocaba e outro em Assis. Em Assis, o caso trata-se de um homem de 63 anos, trabalhador rural, que apresentou febre, dor no corpo, náusea e prostração. Os sintomas pioraram e oito dias depois ele foi internado no Hospital das Clínicas com queda do nível de consciência e insuficiência respiratória com necessidade de intubação. Uma disfunção no coração levou ao choque e à morte, 11 dias após o início dos sintomas.

Divulgação - Mapa de São Paulo mostrando as cidades e os anos de infecções pelo vírus sabiá (SABV) - Foto: Assessoria de Comunicação FMUSP
Mapa de São Paulo mostrando as cidades e os anos de infecções pelo vírus sabiá (SABV) - Foto: Assessoria de Comunicação FMUSP


O Portal AssisCity procurou a Secretária de Saúde de Assis, Cristiane Silveiro para falar sobre o impacto que o resultado dessa pesquisa causa no munícipio. "Nesse momento não há motivos para preocupação, não temos casos notificados desde 2019, o nosso serviço de sentinela é a Vigilância Epidemiológica que nos guia quanto aos casos no município, além da Vigilância Epidemiológica do Estado (GVE)", explica.
Cristiane ainda deixou algumas orientações para a população, que ao apresentarem sintomas como: febre, dor no corpo, náusea, prostração, deve procurar um serviço de saúde, e aos moradores de zona rural sempre que procurar o serviço de saúde informar que reside em zona rural.

O outro caso em Sorocaba

O outro caso foi registrado na cidade de Sorocaba em um paciente de 52 anos que havia caminhado pela floresta na cidade de Eldorado (170 quilômetros ao Sul de São Paulo) e passou a apresentar sintomas como dor muscular, dor abdominal e tontura.

No dia seguinte, ele desenvolveu conjuntivite, sendo medicado em um hospital local e depois liberado. Quatro dias depois, foi internado novamente com febre alta e sonolência. Suspeitou-se de febre amarela e ele foi transferido para o Hospital das Clínicas.

Durante a internação, o quadro clínico foi agravado até ele ser transferido para a Unidade de Terapia Intensiva (UTI), dez dias após o início dos sintomas, com sangramento significativo, insuficiência renal, rebaixamento do nível de consciência e hipotensão, vindo a falecer dois dias depois.

"Fizemos esse estudo durante a epidemia de febre amarela, então nos casos em que não conseguimos fechar o diagnóstico, fomos atrás de outros vírus", explica a médica Ana Catharina Nastri, da Divisão de Doenças Infecciosas do HC-FMUSP. "Para nossa surpresa, achamos esses dois casos, que são extremamente raros." Segundo ela, os avanços na anatomia patológica, especialmente na microscopia eletrônica, permitiram um estudo mais aprofundado sobre o Brazillian mammarenavirus, ou vírus sabiá, trazendo novas informações a respeito de suas manifestações clínicas, histopatologia e possibilidade de transmissão hospitalar. Os achados foram publicados em artigo na revista Travel Medicine and Infectious Disease, em maio deste ano, tendo a médica Nastri como primeira autora e orientação da professora Ana S. Levin, do Departamento de Doenças Infecciosas e Parasitárias da FMUSP.

Vírus sabiá

O nome do agente patogênico é uma referência ao bairro Sabiá, localizado no município de Cotia, na Grande São Paulo, onde suspeita-se que a primeira vítima tenha sido infectada. Embora existam vários tipos de Mammarenavirus descritos em diferentes países da América do Sul, o SABV é característico do Brasil. "Alguns desses vírus possuem o ciclo viral mais bem conhecidos, já o nosso vírus sabiá possui pouquíssimos dados", diz a a médica. "Ainda não sabemos qual é o seu reservatório na natureza, a forma de transmissão, e se existiria infecção através do contato inter-humano."

Previamente ao estudo, apenas quatro infecções por SABV haviam sido registradas. Ao que tudo indica, uma delas ocorreu na cidade de Cotia, em 1990, e outra, na cidade do Espírito Santo do Pinhal, em 1999, ambas localizadas na zona rural do Estado de São Paulo. Nos dois casos, o contágio acometeu trabalhadores rurais que vieram a falecer em decorrência de complicações da febre hemorrágica. As outras duas infecções ocorreram em trabalhadores de laboratório que, provavelmente, foram infectados enquanto manipulavam o vírus. Ambos sobreviveram.

O que sabemos e o que resta saber

Para realizar os diagnósticos, os cientistas utilizaram a técnica metagenômica, que permite identificar vírus ainda desconhecidos por meio da extração, replicação e eventual sequenciamento do material genético do agente infeccioso. Esse material é então comparado a outros organismos em bancos de dados de bioinformática, com informações de patógenos de todo o mundo. Ao relacionar o vírus encontrado nos pacientes com outros tipos de Mammarenavirus e verificar a compatibilidade da descoberta com a prática clínica, determinou-se que se tratava do SABV.

Na análise das duas infecções fatais do estudo, os pesquisadores identificaram sintomas análogos aos registrados nos casos da década de 90. "A parte clínica é muito parecida com o que já havíamos visto antes, e entre os dois novos casos, a manifestação também foi muito similar", diz Ana Nastri. Em todos os casos houve um comprometimento significativo do fígado e de órgãos associados à produção de células de defesa, o que pode ter facilitado o surgimento de infecções secundárias, tornando o diagnóstico inicial mais complexo.

Divulgação - Patologia da infecção grave pelo SABV. Imagens mostram fígado danificado e detalhes do vírus - Foto: Assessoria de Comunicação da FMUSP
Patologia da infecção grave pelo SABV. Imagens mostram fígado danificado e detalhes do vírus - Foto: Assessoria de Comunicação da FMUSP


Quanto à geografia das infecções, os quatro casos registrados tiveram como ponto em comum infecções ocorridas na zona rural. "Inferimos, baseados nos outros Mammarenavirus da América do Sul, que provavelmente a pessoa se contamina por inalação de partículas virais, talvez de fezes de roedores. Mas isso não está comprovado justamente porque temos pouquíssimos casos descritos", diz Ana. A médica ainda alerta que, justamente por se tratar de áreas rurais com menos recursos laboratoriais e de diagnóstico, alguns casos podem ter evadido a análise clínica, impossibilitando um panorama completo da febre hemorrágica brasileira. "Não sabemos se realmente não há casos mais leves, como na febre amarela, que possui desde o caso grave até os que não têm sintoma nenhum."

Uma diferença importante do estudo em relação aos relatos anteriores do vírus remete à incidência de transmissão hospitalar. Os cientistas do IMT e do Hospital das Clínicas não encontraram nenhuma infecção desse tipo durante o rastreamento de contatos. "Isso mostra que com as precauções habituais, como máscara, luva, óculos e avental, não houve transmissão, e nos deixa um pouco mais tranquilos em relação ao nosso vírus", diz Ana Nastri. Ela ressalta, entretanto, que ainda não é possível cravar uma conclusão, pois trata-se apenas de dois casos.
Redação AssisCity com informações do Jornal da Usp
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